Revista Científica Multidisciplinar do IGS,  No.1 enero-abril, 2026. ISSN: SOLICITADO

 

A produção científica em Angola no século XXI: desafios, oportunidades e o papel das revistas académicas emergentes

Scientific production in Angola in the 21st century: challenges, opportunities, and the role of emerging academic journals

La producción científica en Angola en el siglo XXI: retos, oportunidades y el papel de las revistas académicas emergentes

 

Prof. Doutora Eufrásia Correia Victor. Presidente do Instituto Superior Politécnico Gregório Semedo, Angola
Correo electrónico: eufrasia.victor@igs.edu.ao

Prof. Doutor Juan Silvio Cabrera Albert. Vice-Presidente para Assuntos Científicos e Pós-Graduação do Instituto Superior Politécnico Gregório Semedo, Angola
Correo electrónico: juan.silvio@igs.edu.ao
ORCID: http://orcid.org/0000-0001-5276-4123

 

RESUMO

O Editorial analisa a produção científica em Angola no século XXI, destacando desafios estruturais e oportunidades emergentes no contexto do ensino superior. Evidencia-se o crescimento gradual da visibilidade internacional da investigação angolana, ainda limitado por constrangimentos como insuficiente financiamento, fragilidades institucionais e reduzida cultura de investigação. Discute-se também a necessidade de maior indexação e internacionalização das revistas científicas nacionais. Neste cenário, o acesso aberto, especialmente no modelo diamante, surge como estratégia para democratizar o conhecimento e ampliar o impacto científico. As revistas académicas emergentes são apresentadas como atores- chave na validação, difusão e fortalecimento da produção científica. A Okulonga posiciona-se como espaço multidisciplinar comprometido com rigor, ética e qualidade editorial, promovendo o diálogo científico e a integração entre investigação, ensino e extensão. Conclui-se que o fortalecimento do sistema científico angolano exige esforço coletivo e articulação entre ciência, inovação e desenvolvimento social.

Palavras-chave: produção científica, Angola, ensino superior, revistas académicas, acesso aberto

ABSTRACT

This editorial analyzes scientific production in Angola in the 21st century, highlighting structural challenges and emerging opportunities in the context of higher education. It emphasizes the gradual growth of the international visibility of Angolan research, still limited by constraints such as insufficient funding, institutional weaknesses, and a reduced research culture. The need for greater indexing and internationalization of national scientific journals is also discussed. In this scenario, open access, especially in the diamond model, emerges as a strategy to democratize knowledge and broaden scientific impact. Emerging academic journals are presented as key players in the validation, dissemination, and strengthening of scientific production. Okulonga positions itself as a multidisciplinary space committed to rigor, ethics, and editorial quality, promoting scientific dialogue and the integration between research, teaching, and outreach. It concludes that strengthening the Angolan scientific system requires collective effort and articulation between science, innovation, and social development.

Keywords: scientific production, Angola, higher education, academic journals, open access

RESUMEN

Este editorial analiza la producción científica en Angola en el siglo XXI, destacando los desafíos estructurales y las oportunidades emergentes en el contexto de la educación superior. Subraya el crecimiento gradual de la visibilidad internacional de la investigación angoleña, aún limitada por restricciones como la financiación insuficiente, las debilidades institucionales y una cultura de investigación reducida. También se aborda la necesidad de una mayor indexación e internacionalización de las revistas científicas nacionales. En este escenario, el acceso abierto, especialmente en el modelo diamante, emerge como una estrategia para democratizar el conocimiento y ampliar el impacto científico. Las revistas académicas emergentes se presentan como actores clave en la validación, difusión y fortalecimiento de la producción científica. Okulonga se posiciona como un espacio multidisciplinario comprometido con el rigor, la ética y la calidad editorial, promoviendo el diálogo científico y la integración entre investigación, docencia y extensión. Concluye que el fortalecimiento del sistema científico angoleño requiere un esfuerzo colectivo y una articulación entre ciencia, innovación y desarrollo social.

Palabras clave: producción científica, Angola, educación superior, revistas académicas, acceso abierto

EDITORIAL

Okulonga, Revista Científica Multidisciplinar do IGS

A ciência, enquanto motor do desenvolvimento humano, assume no século XXI um papel central na construção de sociedades mais justas, sustentáveis e inovadoras. Em Angola, este imperativo ganha contornos particulares, na medida em que o país se encontra num processo contínuo de consolidação do seu sistema de ensino superior e de fortalecimento da sua capacidade científica. É neste contexto que surge a Okulonga, Revista Científica Multidisciplinar do Instituto Superior Politécnico Gregório Semedo (IGS), como expressão de um compromisso institucional com a promoção, difusão e valorização da produção científica nacional e internacional.

A produção científica angolana tem registado avanços significativos nas últimas décadas, ainda que de forma desigual e marcada por limitações estruturais. Estudos recentes evidenciam um crescimento gradual da presença de investigadores angolanos em bases de dados internacionais como a Web of Science e a Scopus, embora essa presença ainda se mantenha aquém do potencial existente (Chitumba et al., 2024). Tal cenário revela não apenas os desafios inerentes à investigação científica em contextos emergentes, mas também a urgência de políticas e estratégias que promovam maior visibilidade, qualidade e impacto do conhecimento produzido no país.

Entre os principais desafios, destaca-se a necessidade de consolidar uma verdadeira cultura de investigação nas instituições de ensino superior, públicas e privadas. Ainda persiste, em muitos contextos, uma visão limitada da universidade como espaço predominantemente de ensino, em detrimento da investigação e da extensão. A insuficiência de financiamento, a escassez de infra-estruturas adequadas, a reduzida formação avançada de investigadores e as limitações no domínio das competências científicas e metodológicas constituem obstáculos que condicionam o pleno desenvolvimento da produção científica.

Outro desafio relevante prende-se com a visibilidade e disseminação do conhecimento científico produzido em Angola. A baixa indexação, ou quase nenhuma, de revistas nacionais em bases de dados internacionais e a limitada presença em redes globais de investigação dificultam a circulação e o reconhecimento do saber produzido localmente. Como apontam Bandeira e de Araújo (2023), o perfil das revistas científicas electrónicas em Angola ainda reflecte um estágio inicial de desenvolvimento, com necessidade de maior profissionalização editorial e alinhamento com padrões internacionais.

Neste cenário, o movimento de ciência aberta emerge como uma oportunidade estratégica incontornável. A promoção do acesso aberto à informação científica, defendida por diversos autores (Gungula, 2025; Gungula & Castillero, 2026), representa um caminho viável para democratizar o conhecimento, ampliar a visibilidade da produção científica nacional e fomentar a colaboração académica, tanto a nível regional como internacional. A adopção de modelos de acesso aberto, particularmente o acesso aberto diamante, pode constituir uma resposta sustentável e inclusiva às limitações financeiras enfrentadas por muitas instituições angolanas.

Importa reforçar assim, a compreensão da investigação científica não como uma função isolada no contexto das instituições de ensino superior angolanas, mas como um verdadeiro eixo integrador e dinamizador dos seus processos substantivos (Cabrera Albert, 2025), o qual articula-se de forma orgânica com o ensino e a extensão, contribuindo para a formação de profissionais críticos, para a produção de conhecimento relevante e para a transformação da realidade social potenciando sinergias institucionais, elevando a sua qualidade do ensino e reforçando o seu impacto social.

As oportunidades que se colocam à produção científica em Angola são, portanto, significativas. O crescimento do número de instituições de ensino superior, a expansão dos programas de pós-graduação e o aumento do interesse pela investigação científica configuram um cenário promissor. A digitalização e o uso de plataformas tecnológicas, como os sistemas de gestão editorial, facilitam a organização, publicação e disseminação do conhecimento. Paralelamente, a crescente valorização da ciência nos processos de tomada de decisão política e no desenvolvimento socioeconómico abre espaço para uma maior integração entre investigação e sociedade.

É neste contexto que as revistas académicas emergentes assumem um papel estratégico de elevada relevância. Mais do que simples repositórios de artigos, estas revistas configuram-se como espaços de construção, validação e circulação do conhecimento científico. Elas desempenham funções essenciais na consolidação de comunidades académicas, na promoção do rigor científico e na formação de novos investigadores.

A Okulonga nasce, assim, com a ambição de contribuir para este processo de transformação e enquanto revista multidisciplinar, propõe-se acolher a diversidade do pensamento científico, promovendo o diálogo entre diferentes áreas do saber e incentivando abordagens integradoras e inovadoras. A sua missão alinha-se com os princípios de rigor, qualidade e modernidade que orientam o Instituto Superior Politécnico Gregório Semedo, enquanto instituição de ensino superior angolana na qual a investigação científica ocupa um lugar central, integrando e dinamizando os diferentes processos académicos e contribuindo de forma efectiva para o desenvolvimento sustentável de Angola. Neste quadro, a Okulonga afirma-se como um espaço credível, transparente e acessível para a publicação, produção e difusão do conhecimento científico de qualidade.

Assume-se, igualmente, o compromisso com as boas práticas editoriais, incluindo a implementação de processos de revisão por pares, a adopção de políticas éticas rigorosas e a promoção do acesso aberto ao conhecimento. Estes elementos são fundamentais para garantir a credibilidade da Revista e para posicioná-la, progressivamente, em circuitos académicos mais amplos.

Importa sublinhar que o fortalecimento da produção científica em Angola não é uma responsabilidade exclusiva das instituições de ensino superior ou das revistas científicas, trata-se de um esforço colectivo que envolve investigadores, docentes, estudantes, decisores políticos e a sociedade em geral. A ciência deve ser entendida como um bem público, cuja produção e disseminação contribuem para o desenvolvimento humano, a redução das desigualdades e a construção de soluções para os desafios contemporâneos.

Neste sentido, torna-se imperativo promover uma maior articulação entre investigação, inovação e desenvolvimento social. A produção científica deve estar orientada não apenas para a publicação, mas também para a resolução de problemas concretos que afectam a sociedade angolana. Questões relacionadas com a educação, saúde, ambiente, economia e governança exigem abordagens científicas rigorosas e contextualizadas, capazes de gerar conhecimento relevante e aplicável.

Por outro lado, a internacionalização da ciência angolana constitui um desafio e uma oportunidade. A participação em redes de investigação, a colaboração com instituições estrangeiras e a publicação em revistas internacionais são caminhos que devem ser incentivados. Contudo, é igualmente importante valorizar e fortalecer os espaços locais de produção e difusão do conhecimento, garantindo que a ciência produzida em Angola responda às suas próprias necessidades e realidades.

A Okulonga propõe-se a ser um desses espaços. Um espaço de encontro entre investigadores, de partilha de saberes, de construção colectiva do conhecimento. Um espaço que valoriza a produção científica nacional, sem perder de vista a sua inserção no contexto global. Um espaço que acredita na ciência como instrumento de transformação social.

Em conclusão, a produção científica em Angola no século XXI enfrenta desafios significativos, mas também se encontra diante de oportunidades únicas. O fortalecimento das revistas académicas emergentes, como a Okulonga, constitui uma estratégia fundamental para potenciar essas oportunidades e contribuir para a consolidação de um sistema científico mais robusto, inclusivo e relevante.

Que este primeiro número represente não apenas o início de uma revista, mas o compromisso renovado com a ciência, com a educação e com o futuro de Angola.

 

Referencias bibliográficas

Bandeira, V., & de Araújo, P. C. (2023). Perfil das revistas científicas eletrónicas de Angola. RAC: Revista Angolana de Ciências, 5(2), e050205. https://doi.org/10.54580/R0502.05

Cabrera Albert. J.S. (2025) A investigação científica como eixo integrador e dinamizador dos processos substantivos nas instituições de ensino superior angolanas. Gregório Semedo: Ciência e Desenvolvimento, 2(1). https://revistacdugs.ao/article/view/58

Chitumba, H. O., et al. (2024). Caracterização da produção científica angolana indexada nas bases de dados Web of Science e Scopus. Transinformação, 36, e248502. https://doi.org/10.1590/2318-0889202436e248502

Gungula, E. W. (2025). Editorial: iniciativas de fortalecimento do acesso aberto diamante nas instituições de ensino superior angolanas. SAPIENTIAE, 10(2), 111-113. https://doi.org/10.37293/sapientiae102.01

Gungula, E. W., & Castillero Velásquez, J. (2026). Editorial: a ciência aberta como opção estratégica para o fortalecimento do subsistema de ensino superior angolano. SAPIENTIAE, 11(2), I-III. https://doi.org/10.37293/sapientiae112.00