
Revista Científica Multidisciplinar do IGS, No.1 enero-abril, 2026. ISSN: SOLICITADO
Geronildo Ramos Pereira. Universidade do Estado da Bahia, Campus XI, Bahia, Brasil. Correo electrónico: nildo_ramos_@hotmail.com
Ivonete Barreto de Amorim. Universidade do Estado da Bahia, Campus I, Bahia, Brasil. Correo electrónico: ebamorim@uneb.br
RESUMO Este estudo apresenta reflexões que partem do global ao local, com objetivo de analisar a literatura de cordel no Território do Sisal como expressão da cultura popular, compreendendo sua contribuição para a construção da identidade cultural e para a afirmação da potência decolonial do lugar. Nessa perspectiva, foram utilizados como fundamentação teórica principal as pesquisa de Aníbal Quijano (2005), ao discutir a colonialidade como estrutura persistente de dominação; com Walter Mignolo (2008), ao tratar da opção decolonial e da crítica à hegemonia epistêmica ocidental; e com Enrique Dussel (1993), ao propor uma filosofia da libertação centrada nos sujeitos historicamente marginalizados, Geertz (2008) ao refletir sobre a interpretação das Culturas, Freire (1993) abordando sobre a cultura popular e Meneses ( 2019) sobre o cordel enquanto patrimônio Cultural. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico, uma vez que se fundamenta na interpretação e análise de produções teóricas já publicadas, privilegiando a compreensão dos sentidos atribuídos ao fenômeno estudado A literatura de Cordel é saber popular de forte resistência e por isso pensar em uma Educação para as classes populares, que seja libertadora, para construir outros horizontes, configura-se como uma forma singular de protagonismo dos sujeitos do campo principalmente no Território do Sisal. É uma das possibilidades de promover um terreno sólido e favorável, que tenha sentidos e que contribua para uma formação humana e mais completa. Além disso, esta pesquisa reforça o potencial do lugar, enquanto espaço de construção significativa que carrega memórias, identidades, que precisam ser contextualizadas. Palavras-chave: Cultura popular; Decolonialidade; Identidade; Literatura de Cordel; Lugar, Território do Sisal |
ABSTRACT This study presents reflections that move from the global to the local, aiming to analyze cordel literature in the Sisal Territory as an expression of popular culture, understanding its contribution to the construction of cultural identity and to the affirmation of the decolonial power of the place. In this perspective, the main theoretical foundations used were the research of Aníbal Quijano (2005), discussing coloniality as a persistent structure of domination; Walter Mignolo (2008), addressing the decolonial option and the critique of Western epistemic hegemony; Enrique Dussel (1993), proposing a philosophy of liberation centered on historically marginalized subjects; Geertz (2008), reflecting on the interpretation of cultures; Freire (1993), addressing popular culture; and Meneses (2019), on cordel as cultural heritage. This is a qualitative, bibliographical research study, based on the interpretation and analysis of previously published theoretical works, prioritizing the understanding of the meanings attributed to the phenomenon under study. Cordel literature is a form of popular knowledge with strong resistance, and therefore, thinking about an education for the popular classes that is liberating and aims to build new horizons is a unique form of protagonism for rural subjects, especially in the Sisal Territory. It is one of the possibilities for promoting a solid and favorable ground, one that has meaning and contributes to a more complete human formation. Furthermore, this research reinforces the potential of the place as a space of significant construction that carries memories and identities that need to be contextualized. Keywords: Popular culture; Decoloniality; Identity; Cordel Literature; Place; Sisal Territory |
RESUMEN Este estudio presenta reflexiones que transitan de lo global a lo local, con el objetivo de analizar la literatura del cordel en el Territorio del Sisal como expresión de la cultura popular, comprendiendo su contribución a la construcción de la identidad cultural y a la afirmación del poder decolonial del lugar. En esta perspectiva, los principales fundamentos teóricos utilizados fueron la investigación de Aníbal Quijano (2005), que aborda la colonialidad como una estructura persistente de dominación; Walter Mignolo (2008), que trata la opción decolonial y la crítica de la hegemonía epistémica occidental; Enrique Dussel (1993), que propone una filosofía de la liberación centrada en sujetos históricamente marginados; Geertz (2008), que reflexiona sobre la interpretación de las culturas; Freire (1993), que aborda la cultura popular; y Meneses (2019), sobre el cordel como patrimonio cultural. Se trata de un estudio de investigación cualitativo y bibliográfico, basado en la interpretación y el análisis de trabajos teóricos previamente publicados, que prioriza la comprensión de los significados atribuidos al fenómeno estudiado. La literatura cordelana es una forma de saber popular con fuerte resistencia, por lo que pensar en una educación para las clases populares que sea liberadora y aspire a construir nuevos horizontes constituye una forma singular de protagonismo para los sujetos rurales, especialmente en el Territorio del Sisal. Es una de las posibilidades para promover un terreno sólido y favorable, con significado, que contribuya a una formación humana más integral. Además, esta investigación refuerza el potencial del lugar como espacio de construcción significativa que alberga memorias e identidades que necesitan ser contextualizadas. Palabras clave: Cultura popular; Descolonización; Identidad; Literatura cordelana; Lugar; Territorio del Sisal |
São crescentes as pesquisas, leituras e discussões que colocam a literatura de Cordel como eixo principal nos mais diversos setores sociais, à medida em que se busca estabelecer uma ponte de firmamento desse termo cultural e a identidade dos sujeitos que desenvolvem esse tipo de literatura, bem como mantê-lo vivo e valorizá-lo, visto que, historicamente, foi colocado, assim como outras artes, de forma marginalizada e inferiorizada pela cultura eurocêntrica, que prevalecia apenas sua visão centralizada a burguesia.
É nesse sentido que pensar estratégias decoloniais de poder se torna fundamental no âmbito das pesquisas acadêmicas, por possibilitar a criação de espaços de debate e de contextualização dessas culturas, que, por muito tempo, tiveram seus saberes e conhecimentos negados. A partir disso, abre-se um caminho possível para que esses sujeitos possam externar a potencialidade dessa cultura popular, promovendo um descortinamento histórico.
Fazendo um recorte espacial para o Território do Sisal, no estado da Bahia, região Nordeste do Brasil, onde a literatura de cordel se configura como uma cultura potente e pulsante, que carrega saberes e modos de vida dos sujeitos locais, coloca-se em pauta uma discussão de grande relevância: a necessidade de repensar o conceito de lugar, em contraposição a um debate homogeneizante historicamente estabelecido pela Europa, a fim de dar voz e vez aos povos que, por muitas décadas, tiveram sua cultura silenciada.
A literatura de cordel é uma expressão marcante da cultura sertaneja, retratando de forma poética o estilo de vida, a memória e a força resilientes do nosso sertão, mantendo vivo um legado ímpar de um povo que em meio as adversidades locais, constrói uma jornada resistente e encantadora.
Diante desse cenário, fica estabelecido a seguinte questão de pesquisa: Como a literatura de cordel, enquanto expressão da cultura popular no Território do Sisal, contribui para a construção da identidade cultural e para a afirmação da potência decolonial do lugar? Objetivo geral: Analisar a literatura de cordel no Território do Sisal como expressão da cultura popular, compreendendo sua contribuição para a construção da identidade cultural e para a afirmação da potência decolonial do lugar.
É nesse movimento de construção deste estudo que se torna possível refletir sobre os termos anteriormente mencionados — decolonialidade, cultura popular e homogeneidade —, a fim de construir uma visão mais ampliada e consistente dos fenômenos analisados, permitindo enxergar e conhecer uma face historicamente ocultada, à medida que se abre espaço para o enaltecimento da cultura popular na sociedade contemporânea.
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica, fundamentada na análise interpretativa de produções teóricas que abordam a literatura de cordel, a cultura popular e as perspectivas decoloniais no campo educacional. A abordagem qualitativa justifica-se por possibilitar a compreensão de fenômenos socioculturais a partir de seus significados, contextos e dimensões simbólicas.
Dessa forma, o caminho metodológico adotado possibilita articular crítica teórica e valorização da cultura popular, evidenciando a literatura de cordel como instrumento de resistência epistemológica e afirmação de saberes historicamente subalternizados, especialmente quando situada no contexto específico do Território do Sisal.
O percurso metodológico foi desenvolvido por meio de uma revisão bibliográfica de caráter interpretativo, contemplando autores que discutem a colonialidade do poder e do saber, bem como alternativas epistemológicas decoloniais. Nesse sentido, estabelece-se diálogo com Aníbal Quijano (2005), ao abordar a colonialidade como estrutura persistente de dominação; com Walter Mignolo (2008), ao tratar da opção decolonial e da crítica à hegemonia epistêmica ocidental; e com Enrique Dussel (1993), ao propor uma filosofia da libertação centrada nos sujeitos historicamente marginalizados.
Somam-se a essas contribuições as reflexões de Arturo Escobar (2014), especialmente no que se refere ao conceito de “pluriverso” e à valorização de múltiplas formas de existência e conhecimento, bem como as proposições de Moacir Gadotti (2012), que enfatizam uma educação crítica, emancipatória e comprometida com os saberes populares e com a realidade social e Geertz (2008) que discorre sobre a interpretação das culturas e seus desdobramentos sociais.
A análise do material bibliográfico foi conduzida por uma abordagem interpretativa, buscando identificar convergências teóricas entre os autores decoloniais e os estudos sobre cultura popular e literatura de cordel. Nesse processo, o cordel é compreendido não apenas como manifestação estética, mas como forma legítima de produção de conhecimento situada.
Como elemento de ineditismo deste estudo, destaca-se o recorte analítico voltado ao Território do Sisal, no estado da Bahia, região marcada pela forte presença de manifestações da cultura popular e por dinâmicas socioculturais singulares. A inserção desse território como referência de análise permite contextualizar a literatura de cordel em uma perspectiva situada, valorizando sua função como expressão identitária, pedagógica e de resistência cultural.
Historicamente, a Europa constituiu-se como palco e fortaleza de grandes “desenvolvimentos” sociais, centrados no poder de dominação de riquezas e construção do conhecimento, com crescente ascensão para além dos outros povos e territórios, sendo o pilar fundamental para globalização e modernidade. Partindo desse pressuposto, fica evidente que as demais civilizações eram colocadas em posição de inferioridade em todos os aspectos sociais, pois a Europa enquanto estrutura colonial negava e ocultada todas as outras culturas em detrimento da sua, mantendo um padrão mundial e fortalecimento do Capitalismo em massa. Segundo o autor Quijano (2005).
O fato de que os europeus ocidentais imaginaram ser a culminação de uma trajetória civilizatória desde um estado de natureza, levou-os também a pensar-se como os modernos da humanidade e de sua história, isto é, como o novo e ao mesmo tempo o mais avançado da espécie. Mas já que ao mesmo tempo atribuíam ao restante da espécie o pertencimento a uma categoria, por natureza, inferior e por isso anterior, isto é, o passado no processo da espécie, os europeus imaginaram também serem não apenas os portadores exclusivos de tal modernidade, mas igualmente seus exclusivos criadores e protagonistas. (Quijano, 2005, p.122).
Evidencia-se como os europeus mantiveram uma posição dominante no cenário mundial ao longo do tempo, apresentando-se como portadores da modernidade a ser difundida em larga escala, mesmo quando isso implicava a subalternização de outros povos, sem uma preocupação efetiva com as consequências desse processo, uma vez que a sobreposição cultural era naturalizada. O eurocentrismo consolidou-se globalmente de maneira progressiva, difundindo uma visão unificada dos fatos e produzindo noções de “novidade” e “modernidade” que deveriam ser seguidas sem uma problematização crítica. Esse processo pode também ser compreendido como uma geografia do poder, em termos racionais, objetivos e diretos. A colonialidade do poder se materializa, assim, como uma construção de conhecimento de caráter homogêneo e hegemônico.
Fortemente enraizados, percebe-se que a Modernidade e a homogeneidade foram colocados como experiências exclusivamente europeus, categorizando a outra parte do mundo como “primitivos” com necessidade de educar-se para o moderno, modelo implantado em grande imposição de dominação das raças, isso quer dizer que “a colonialidade do poder baseada na imposição da ideia de raça como instrumento de dominação foi sempre um fator limitante destes processos de construção do Estado-nação baseados no modelo eurocêntrico” (QUIJANO, 2005, p. 136).
Nesse movimento, emergem também inquietações e resistências intelectuais de diferentes povos, historicamente ocultados por uma narrativa que pode ser compreendida como uma construção parcial e velada da história, abrindo espaço para as discussões em torno da decolonialidade. Considerando que a modernidade se constituiu como um projeto historicamente situado, sua problematização implica reconhecer que ela deveria ser contextualizada a partir de uma racionalidade que também levasse em conta as subjetividades dos povos, compreendendo que diferentes culturas produzem suas próprias formas de modernidade, com significados e valores próprios, igualmente legítimos e passíveis de valorização. Essa perspectiva tensiona e rompe com um poder historicamente sistematizado que, por muito tempo, permaneceu no “topo do iceberg”, ocultando uma ampla herança cultural sob sua superfície dominante.
Compreender as culturas locais é um movimento importante e necessário para que se possa perceber as mais diversas pluralidades existentes nas camadas da sociedade, revelando múltiplas identidades e saberes que se articulam e se complementam de forma dinâmica, favorecendo a emergência de novas formas de pensamento e de construção coletiva. As culturas constituem referenciais fundamentais para a interpretação da sociedade como um todo, bem como de suas formas de pensar e de se constituir enquanto sujeitos sociais, em permanente relação com suas dimensões ecológicas e biológicas, uma vez que não se pode estabelecer uma desconexão entre cultura, lugar e natureza.
A construção dessa nova maneira de enxergar a sociedade contemporânea local se faz também a partir de um conceito de desprendimento chamado de “desobediência epistêmica” que retrata sobretudo a desvinculação da lógica eurocêntrica e colonial na produção do conhecimento ao valorizar fortemente os saberes dos povos subalternizados, ou seja, descolonizar em primeiro ponto o intelecto afim de produzir um conhecimento mais significativo e sistemático por meio e em conjunto dos povos locais.
É preciso ressaltar que o a “falsa modernidade” imposta possui um lado sombrio, de pensamento único, por isso, romper essa imposição epistêmica é libertador, abre espaços para construção de outros conceitos e modos de ver o mundo, bem como, dar direitos e reconhece identidades. Nesse sentido as “Opções descoloniais estão mostrando que o caminho para o futuro não pode ser construído das ruínas e memórias da civilização ocidental e de seus aliados internos” (Mignolo, 2008, p.285). Assim, evidencia-se a superação de uma história que parte de uma ideologia e projeta não só formas de pensar, mas agir por meio de projetos e ações concretizadas sob uma perspectiva libertadora e diversa, que seja capaz de superar as limitações e promover passos para uma nova concepção de mudança sobre este assunto.
Em anos recentes, as discussões sobre o conceito de lugar vêm ganhando espaço em diversas áreas das ciências sociais, apresentando diferentes perspectivas teóricas. À medida que esses questionamentos se intensificam, tornam-se uma pauta central para a compreensão das relações entre lugar e cultura. Historicamente, o lugar foi frequentemente colocado em segundo plano, sendo por muitas vezes desconsiderado e invisibilizado, uma vez que o espaço geográfico assumiu maior centralidade, influenciado por interesses vinculados à lógica de domínio capitalista do próprio conceito de espaço.
É necessário estabelecer uma distinção entre os conceitos de espaço e lugar, uma vez que ambos possuem significados distintos: o primeiro está mais associado a uma dimensão objetiva, enquanto o segundo se relaciona ao campo da subjetividade, respectivamente. Somente a partir dessa diferenciação é possível alcançar maior clareza e consistência no debate proposto. Compreender o lugar para além de um ponto de referência no mapa constitui-se como elemento fundamental para apreender sua totalidade e seus desdobramentos em processos mais amplos.
O surgimento de várias críticas ao domínio desse espaço que prevalecia o “desenvolvimento” da globalização trouxe debates a cerca desse modelo. Se opondo fortemente a esse molde que desconsiderava os sujeitos e suas subjetividades, a defesa do conceito lugar, a oposição ao capitalismo e valorização da vida, se torna essencial. É preciso repensar as práticas sociais valorizando aas potencialidades do lugar, das suas representações e cultura enraizada do pertencimento.
Conhecer o local é um movimento relevante e necessário para a manutenção e conservação da biodiversidade, desconstruindo a visão de um lugar limitado ou atrasado, ao evidenciar as conexões entre lugar e cultura, bem como ao reconhecer os modos de vida, saberes e pluralidades presentes nesse contexto de pertencimento. A afirmação de Escobar (2005) reforça significativamente esse ponto ao abordar que:
Dito de outra maneira, uma reafirmação do lugar, o não-capitalismo, e a cultura local opostos ao domínio do espaço, o capital e a modernidade, os quais são centrais no discurso da globalização, deve resultar em teorias que tornem viáveis as possibilidades para reconceber e reconstruir o mundo a partir de uma perspectiva de práticas baseadas-no-lugar. (Escobar, 2005, p.70)
A reinvenção desse pensamento sobre o lugar retira-o de uma suposta neutralidade e passividade historicamente construída ao longo dos séculos, abrindo espaço para novas possibilidades de construção social. Nesse movimento, promove-se maior autonomia e reconhecimento dos povos, por meio de uma defesa mais consistente desse contexto a partir das vozes dos próprios sujeitos, que passam a se constituir como protagonistas de suas próprias histórias.
Lugar e cultura não devem ser desassociados e analisados apenas como dados coletados, as subjetividades devem ser pontos centrais para a construção social, potencializando que o conhecimento local como instrumento de mudanças e reparos estruturais do sistema, pois não se deve negar que os seres humanos estão enraizados com a natureza e conhecê-lo detalhadamente é algo necessário, visto que “Os modelos de cultura e conhecimento baseiam-se em processos históricos, linguísticos e culturais, que, apesar de que nunca estão isolados das histórias mais amplas, porém retêm certa especificidade de lugar” (Escobar, 2005, p. 74.)
É de extrema importância repensar o lugar como prática decolonial, como um projeto transformador, alinhada a crítica do poder sobre o local, com articulações entre as demais ciências próximas deste debate, pois, estar aberto às novas tecnologias é preciso um entendimento profundo e minucioso sobre esta pauta.
O lugar pode ser compreendido como uma teia de significados, cujo acesso exige uma postura de suspensão de pré-concepções, isto é, um “despir-se” de pressupostos para melhor apreender suas estruturas e valores. Essa compreensão demanda uma interpretação minuciosa das culturas, uma vez que, sem esse exercício de ruptura com enquadramentos intelectuais previamente estabelecidos, não é possível alcançar uma compreensão mais aprofundada de sua complexidade.
O desaparecimento crescente da ideologia do lugar em detrimento do global ao local é ponto crucial para o seu fortalecimento urgente, repensando estratégias de valorização identitária, reconhecimento dos povos em seus territórios e sobretudo contextualização de suas práticas sociais e culturais valorosas, como enfrentamento e resistência.
Diversos pensadores tentam explicar realmente a definição de Cultura, se ela pode ser aplicada, vivida ou expandida. No mais, o que se pode entender é que se trata de um questionamento, uma ideia que é aprimorada a partir do difundir das informações, visto que cada sujeito a interpreta de uma forma diferenciada. Porém, esse padrão se confirma no caso do conceito de cultura, em torno do qual surgiu todo o estudo da Antropologia e cujo âmbito essa matéria tem se preocupado cada vez mais em limitar, especificar, enfocar e conter.
É nessa perspectiva que se propõe a discussão sobre essa questão, não concebendo a cultura como algo limitado, reduzido ou definitivo, uma vez que diferentes interpretações são produzidas de forma situada e, por vezes, mais complexa e potente. Trata-se de uma concepção de cultura que, em determinados contextos, tende a se sobrepor a outras, consideradas como inferiores, impondo uma lógica única a ser seguida, sem considerar a pluralidade de experiências culturais existentes. Por isso, analisar o termo “cultura” revela-se um exercício mais complexo do que esclarecedor quando realizado a partir de perspectivas homogêneas e universalizantes.
Sem dúvidas, ao se realizar uma análise crítica, deve-se empregar com precisão o termo “culturas”, em vez de “cultura”, uma vez que não se trata de uma realidade única, mas de múltiplas expressões. O modo de vida de um povo, o legado social que o indivíduo adquire de seu grupo, as formas de pensar, sentir e acreditar em relação ao mundo, bem como as abstrações do comportamento e os conjuntos de práticas que orientam a adaptação tanto ao ambiente externo quanto às relações entre os sujeitos, constituem elementos fundamentais para a construção das culturas. Geertz (2008) apresenta a cultura dessa forma e aplica a sua visão, afirmando que
o conceito de cultura que eu defendo, e cuja utilidade os ensaios abaixo tentam demonstrar, é essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais enigmáticas na sua superfície. (Geertz, 2008, p.5)
Percebemos, desse modo, a clareza do autor ao demonstrar que a cultura não é um instrumento limitado ou rigidamente definido, mas uma questão de interpretação e de busca de significados, sendo o ser humano o principal agente desse processo interpretativo, uma vez que está inserido na própria cultura que vivencia. Nesse sentido, o conhecimento cultural se constrói de maneira situada e profunda, exigindo do pesquisador um cuidado metodológico e interpretativo rigoroso ao analisar essa complexa conjuntura cultural.
Nesse sentido, a valorização do local e de seus significados são pautas importantes com necessidade de ascensão, pois a cultura local é sobretudo um instrumento político vivo com grande relevância social. Podemos assimilar que cultura é um todo, está presente em inúmeros lugares, indo do modo de andar ao vestir-se, pois não existe maior ou menor, superior ou inferior, cada um carrega em si um significado independente qual seja ele, só basta saber interpretá-lo, pois o princípio das culturas é a sociedade, a religiosidade, os comportamentos, as percepções, as falas, enfim, é preciso estar aberto ao novo ter acesso a elas com respeito às diversidades.
Nesta perspectiva, com forte desdobramento no Território do Sisal, a literatura de cordel permanece viva e enraizada pelos cordelistas locais. Com poder crítico da palavra em versos e contra hegemônico, o cordel, por ser uma literatura popular, possibilita refletir sobre questões socais de forma dinâmica e rimada. A Poesia popular a seguir retrata especificamente essa imposição colonial sobre os demais territórios e abre um leque para reflexão aos leitores.
“Eurocentrismo e a defesa do lugar”
Peço Licença aos leitores
Pra esse cordel recitar
De uma história mascarada
Que vivem a contar
Sobre o Eurocentrismo
E a natureza do lugarEurocentrismo é um mito
Que se diz universal
Que seu progresso é de berço
É modelo Ocidental
E os demais são periferia
Sofre o custo e o lado mal.A tal da modernidade
Que vivem a ditar
Exigem que os outros povos
Venham a se “civilizar”
Cobertos pela razão Europeia
Que busca-se enraizar.Europa é centro
O outro é atrasado
Europa é razão
O outro é colonizado
Europa é superioridade
O outro inferiorizado.Se o outro que é primitivo
E se recusa a se civilizar
As guerras são normalizadas
E o europeu vamos inocentar
Pois o bárbaro que é o culpado
Que se opôs a se “educar”Toda a cultura negada
Nos coloca a refletir
Que essa máscara velada
É preciso destruir
Com conhecimento e leitura
Nos fazendo “existir”Não é um espaço geográfico
Que decide o que lugar
Não são as visões das ciências
Que esse tema deve pautar
São as memórias dos povos
Que é preciso considerarConectam o espaço
Com a tal globalização
Mas Lugar é vivência e cultura
Com forte oposição
Desse modelo capitalista
Que espalha dominaçãoA natureza não se desprende
Do seu meio social
Natureza não é manipulável
É como vínculo maternal
Está conectado entre os povos
De forma fraternalLugar é ponto de partida
Na construção do saber
Não é algo ultrapassado
Que é preciso se “desenvolver”
É cultura pulsante
Para se ver e conhecer.A quem interessa essa globalização
Fortemente sobre o lugar?
Que desenvolvimento é este
Que está a se espalhar?
Lugar é local vivo e político
Como afirma Escobar.Geronildo Ramos, (2026)
A poesia de cordel fortalece a discussão sobre o lugar, valorizando os sujeitos em suas subjetividades, ao mesmo tempo em que realiza uma crítica ao poder colonial historicamente enraizado na sociedade. Trata-se de uma forma de resistência popular que busca manter vivo um legado das classes sociais, evidenciando a potencialidade desse espaço, a diversidade cultural e suas memórias afetivas, além de um cuidado singular com a natureza, compreendida como elemento constitutivo das culturas. Ressalta-se ainda uma crítica à noção de globalização, frequentemente debatida nas ciências sociais, questionando a quem ela se destina, quais interesses a orientam e quais são, de fato, seus objetivos.
É preciso compreender que a defesa do lugar é mais que um ponto importante para legitimação da vida, é sobretudo uma oposição as estruturas do sistema frente a desterritorialização, assegurando permanência e mantendo o senso de pertencimento dos povos.
A Literatura de Cordel é um tipo de poesia que se caracteriza como uma manifestação cultural popular bastante relevante que retrata precisamente as “raízes” da região Nordeste, a cultura e o modo de vida desse povo e se encaixando dentre os gêneros literários. “O cordel é, sim, via de acesso indispensável para o conhecimento da realidade histórica do Nordeste e do restante do país” (Meneses 2019, p. 237).
Sendo um instrumento cultural que valoriza o percurso formativo dos sujeitos do campo, aproximando-os de suas identidades e revelando os saberes construídos no processo de escolarização, compreende-se que a escrita de cordéis exalta, nas práticas cotidianas, a leveza da troca de conhecimentos, promovendo a ressignificação da vida e contribuindo para a superação da instrumentalização do saber no âmbito escolar.
Por apresentar traços próprios, podemos afirmar que a Literatura de Cordel também possui uma grande carga cultural ao retratar os valores de um povo, e que se faz viva até hoje. Pode ser considerado como prática sócio discursiva de diversas temáticas, ao apresentar uma determinada visão, ideia, ou até mesmo uma crítica feita por um determinado grupo ou pessoa a uma situação. Para o autor Silva et al (2010)
[...] os temas abordados envolvem desde a ficção até temas de cunho social, discutidos pela sociedade. Entre eles podemos destacar: histórias de amor e aventuras (heroísmo), histórias fantásticas, biografias, fome, violência, acontecimentos políticos, assassinatos de pessoas, problemas sociais. (Silva, et al, 2010, p. 310)
Assim, podemos conhecer as culturas de um determinado povo, resgatar as memórias para que não se tornem esquecidas e, consequentemente, insignificantes dentro do contexto social, já que toda história traz em si um significado, a discutir certo assunto tanto político quanto social.
Nessa lógica, o cordel possibilita uma reflexão sobre a própria identidade e situa o sujeito em seu contexto. Por meio dos folhetos, é possível perceber uma forma de pertencimento ao lugar e de inserção nessa cultura, o que contribui para a construção de uma identidade própria, ao estabelecer relações com a história de vida, costumes, lugares, tradições e vestimentas compartilhadas. Nesse sentido, o autor Pereira (2017) esclarece que, mesmo em um movimento de sobreposição cultural em constante disputa, o cordel mantém-se firme em seu propósito de defender e contextualizar a cultura de seu povo, ao afirmar que
Mesmo em um movimento de sobreposição cultural, em que muitas vezes somos alienados pela mídia para estar valorizando o modo de vida de outros povos mais que a nossa, principalmente a europeia, por ser o “centro das atenções”, tendo os olhos de milhares de pessoas voltados a ela, esse gênero busca preservar a cultura de povo nordestino, guerreiro e batalhador, sendo oportuno o seu trabalho na sociedade. (Pereira, 2017, p. 30)
Fica evidente que o estreitamento entre identidade local e decolonialidade se faz fortemente presente no Território do Sisal por meio dessa arte popular, que se mantém como força e expressão de resistência em meio aos avanços e transformações sociais, sendo oportuno o seu fortalecimento, valorização e divulgação nesse contexto.
Pensar uma educação para as classes populares que seja de fato libertadora é um dos princípios que orientam a Educação do Campo, voltada para uma formação que atribua sentido às relações humanas, sendo o saber construído no interior das camadas populares. Nesse sentido, a Educação Popular constitui-se como um “esforço de mobilização, organização e capacitação das classes; capacitação científica e técnica” [...], estabelecendo uma estreita relação entre escola e vida política (Freire, 1993, p. 19)
Trata-se de uma educação que compreende o sujeito em sua integralidade, reconhecendo-o como agente ativo no processo de construção do conhecimento, capaz de expressar suas necessidades e anseios a partir de seu contexto. Essa perspectiva valoriza a diversidade cultural dos povos e contribui para a formação de uma visão crítica da sociedade.
Sendo assim, a literatura de cordel, enquanto manifestação cultural produzida pelo povo e no campo, voltada à valorização da cultura local, possibilita a dinamização dos saberes da vida no campo, bem como se insere como uma alternativa para a valorização da história e da cultura desses sujeitos, além de contribuir para a formação humana.
Fomentar discussões sobre a valorização do saber popular perpassa a compreensão da riqueza cultural que pode ser trabalhada pelas unidades escolares e demais espaços de formação a partir da divulgação da produção cultural do povo e da região em que os sujeitões estão inseridos, possibilitando, assim, uma aproximação entre estes espaços, numa relação de parceria, formação, aprendizagens e trocas de saberes que ambos os espaços formativos dispõem.
É importante destacar que o campo da educação é um campo complexo, constituído por diferentes vertentes e tradições fortemente enraizadas em culturas e ideologias diversas. Assim sendo, a educação é plural e dinâmica, não se restringindo a um modelo unilateral ou fragmentado, devendo ser concebida a partir de um princípio de valorização e cuidado estrutural que integre diferentes saberes e vivências.
Pensar para além dos muros ideológicos implica refletir sobre uma educação popular de caráter crítico, estreitamente vinculada à realidade e ao contexto histórico local, promovendo uma integração mais efetiva e coerente, que reconheça o território situado e seus objetivos sociais comuns de enfrentamento aos modelos impostos, com um viés democrático e humanizador. Para Gadotti (2012), a educação para as classes populares constitui-se como uma oposição ao modelo colonial, visto que
Um dos princípios originários da educação popular tem sido a criação de uma nova epistemologia, baseada no profundo respeito pelo senso comum que trazem os setores populares em sua prática cotidiana, problematizando-o, tratando de descobrir a teoria presente na prática popular, teoria ainda não conhecida pelo povo, problematizando-a também, incorporando-lhe um raciocínio mais rigoroso, científico e unitário. (Gadotti, 2012, p.14)
Assim, percebe-se a relevância da defesa de uma educação emancipatória para as classes populares, voltada à prática social como meio de transformação da realidade e de inclusão dos povos historicamente excluídos, a fim de incorporar um processo de libertação intelectual de todos os sujeitos. Educar-se nesse sentido é, sobretudo, um ato político que requer o enfrentamento das formas de submissão historicamente impostas aos povos colonizados, constituindo-se como instrumento de justiça social e de participação horizontal na construção do conhecimento.
Toda a educação deve ser pensada a partir do social, do seu viés político e histórico, pois só assim para superar as “correntes” que nos prendem dentro de uma ideologia pensada colonialmente, mesmo percebendo que o desfazer desse vínculo é uma luta intelectual constante que nos faz por muitas vezes aprisionar-se. É por meio disso, que essa luta precisa ser travada, não vendo mais como algo aceitável, mas como um direito de deve ser respeitado e para além disso colocado em prática.
Uma formação pautada ao olhar crítico nesse universo do discurso, é capaz de criar possibilidades de resenhar novas oportunidades para as classes desprivilegiadas, abrir caminhos para constituir uma modelo de sociedade capaz de se perceber integrante, parte do todo, implicados com sua cultura, reproduzindo a ordem social, tendo ciência da historicidade que os envolve e os desdobramentos consequentemente ocorridos.
Nessa perspectiva, projetar intervenções sociais constitui um caminho fecundo para a construção de uma nova concepção de educação e de visão de mundo coletiva, pautada na escuta, no respeito e na mobilização dos sujeitos para uma compreensão mais ampla das questões do território enquanto espaço vivo e político. Trata-se de um processo que favorece a criação de práticas educativas inventivas e transformadoras, “valorizando atitudes interventivas e legitimadas na transformação educativa e social, em direção da desobediência epistêmica, tão significativa no contexto da intervenção” (Amorim, 2023, p. 27). Assim, intervir de forma respeitosa e fundamentada torna-se essencial para o fortalecimento da identidade local, que se consolida por meio de processos coletivos, reflexivos e dialógicos, a partir de problemáticas concretas que demandam transformação.
Diante das discussões abordadas neste estudo, evidencia-se uma forte crítica ao privilégio do espaço em detrimento do lugar, do capitalismo sobre formas não capitalistas de organização social e das culturas globais sobre as culturas locais, dinâmicas que se perpetuaram ao longo do tempo na sociedade, produzindo estruturas de poder e dominação. Nesse sentido, busca-se alinhar a teoria social a estratégias políticas daqueles que vivem à margem das hegemonias contemporâneas.
Coloca-se em pauta a necessidade de defender que as formas de pós-desenvolvimento estão em constante construção e podem rearticular as dimensões da subjetividade e da existência humana, sobretudo por meio da valorização dos povos locais e do respeito às suas identidades, superando a crise da chamada “modernidade” e dando voz aos sujeitos historicamente marginalizados das periferias. Nesse sentido, busca-se reocupar o lugar e a natureza com saberes que a racionalidade técnica europeia tentou apagar.
A literatura de Cordel aparece como forma de resistência e oposição ao modelo homogêneo e colonial no Território do Sisal, mostrando o potencial da cultura popular e local frente as adversidades estruturais do sistema, possibilitando novas formas de pensar e agir por meio de ações concretas e significativas, valorizando a memória e construção do conhecimento por meio da interpretação e subjetividade dos sujeitos.
A literatura de cordel apresenta-se como uma forma de resistência e de oposição ao modelo homogêneo e colonial no Território do Sisal, evidenciando o potencial da cultura popular e local frente às adversidades estruturais do sistema. Nesse sentido, possibilita novas formas de pensar e agir por meio de ações concretas e significativas, valorizando a memória e a construção do conhecimento a partir da interpretação e da subjetividade dos sujeitos.
A relevância de uma educação popular precisa ser continuamente reforçada em nossa sociedade, na busca de um objetivo comum para essa classe, de forma emancipadora e libertadora, valorizando suas tradições, costumes e saberes locais, firmando-se como uma prática social inteiramente significativa e transformadora.
Contextualizar essa problemática social possibilita novos olhares e ações futuras voltadas ao rompimento de estruturas ideológicas de poder, abrindo espaço para a construção de novas histórias e para o fortalecimento do alinhamento cultural.
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